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Eveline 2008

            Ela se sentou à janela, vendo o poente invadir a alameda. Sua cabeça estava inclinada contra a cortina e o odor de cretona empoeirada às suas narinas. Ela estava cansada.

            Poucas pessoas passavam. O morador da última casa estava a caminho do lar; o estalar de seus passos pelo pavimento de concreto e depois craquejando sobre o cascalho defronte às novas casas de carmim. Houve um tempo em que lá havia um campo, onde costumavam brincar, todo fim de tarde, com as crianças da vizinhança. E então um homem de Belfast comprou o campo e lá construiu casas. Não  como as outras, pequenas e marrons; mas reluzentes casas de tijolos com brilhantes telhados. As crianças da alameda costumavam brincar juntas naquele campo -  os Devines, os Waters, os Dunns, o pequeno Keogh perneta; ela, seus irmãos e irmãs. Ernest, entretanto, nunca brincava: já havia crescido demasiadamente. Seu pai tentava afugentá-los, perseguindo-os pelo campo com sua bengala de abrunheiro; mas geralmente o pequeno Keogh ficava de guarda e alertava quando o via aproximar-se. Assim mesmo pareciam ser mais felizes nesses tempos. O pai não era tão mau então e, além disso, sua mãe estava viva. Isso foi há muito tempo atrás; ela e os irmãos já haviam crescido, e sua mãe havia morrido. Tizzie Dunn estava morto, também, e os Waters haviam partido de volta para a Inglaterra. Tudo muda. E agora ela que iria embora como os outros, deixaria o lar.

            Lar! Ela perscrutou o quarto, revendo toda a mobília tão familiar, que espanou sempre uma vez por semana durante tantos anos, perguntando-se de onde surgira tanta poeira. Ela nunca mais iria ver, talvez, aqueles objetos familiares novamente, de cuja presença nunca sonhara estar distante. E mesmo depois de tantos anos ela nunca descobriu o nome do padre cuja fotografia amarelada fora pendurada na parede acima do órgão quebrado, ao lado da cópia colorida das promessas feitas à Abençoada Margaret Mary Alacoque. Ele fora colega de escola de seu pai. Todas as vezes que ele mostrava a fotografia a alguma visita, costumava fazer um comentário casual:

            - Ele está em Melbourne agora.

Ela consentiu em partir, em deixar o lar. Seria prudente? Ela então tentou balancear cada lado da questão. No seu lar tivera abrigo e comida; ao seu lado aqueles com que conviveu a vida inteira. Claro que ela precisara trabalhar muito, na casa e nos negócios. O que diriam dela no Armazém, quando soubessem que ela havia fugido com um rapaz? Diriam que era uma tola, quem sabe; e seu lugar seria ocupado logo depois que fizessem um anúncio. A senhorita Gavan ficaria contente. Sempre tivera uma vantagem sobre ela, e mostrava isso, especialmente quando havia outras pessoas por perto, escutando.

            - Senhorita Hill, não vê que aquelas senhoras a estão esperando?

            - Aparente jovialidade, senhorita Hill, por favor.

            Ela não choraria muito por abandonar o Armazém.

            Porém, em seu novo lar, num país distante e desconhecido, não seria dessa forma. Lá ela casaria – ela, Eveline. As pessoas a tratariam com respeito. Não seria tratada nem um pouco como a sua mãe fora. Até mesmo agora, apesar de já ter passado dos dezenove anos, ela ainda se sentia ameaçada pela violência do pai. Ela sabia que isto havia originado as palpitações. Enquanto todos cresciam, ele nunca a havia dado uma lição, como fazia com Harry e Ernst, porque era uma menina; mas ultimamente começou a ameaçá-la e dizer o que ele faria com ela, pela sua mãe falecida. E agora que não havia ninguém para protegê-la. Ernst falecera e Harry, que estava no ramo de decoração de igrejas, estava quase sempre em algum canto qualquer no interior. Além disso, aquela briga toda por dinheiro nas noites de sábado desgastaram-na indescritivelmente. Ela sempre cedia o ordenado inteiro- sete shillings – e Harry sempre mandava o que podia, mas o problema era conseguir alguma coisa de seu pai. Ele falava que ela esbanjava dinheiro, que não tinha consciência, que não daria o que conseguira com tanto esforço para ela desperdiçar na rua, e muito mais, pois geralmente não era simpático aos sábados à noite. No fim, ele daria e perguntaria se a moça tinha alguma intenção de usar de uma parte dele para comprar a janta de domingo. Então ela tinha de sair o mais rápido que podia e fazer as compras, segurando firme a negra bolsa de couro em sua mão enquanto abria caminho pela multidão e retornando tarde à casa, amontoada de provisões. Ela tinha muito trabalho para manter o lar e checar regularmente se as crianças deixadas a seu cuidado haviam ido à escola e para preparar suas refeições. Era trabalho árduo – uma árdua vida – mas como estava para abandoná-la, ela não a considerava uma vida indesejável de todo.

            A mulher estava para explorar uma vida nova com Frank. Frank era muito gentil, valoroso, sincero. Ela partiria no navio noturno com o amado, para ser sua esposa e viver com ele em Buenos Aires, onde o noivo tinha um lar só esperando por ela. Como se lembrava da primeira vez em que o viu. Ele estava alugando uma casa na rota principal, que ela usualmente visitava. Parecia que tinha sido há algumas semanas atrás. Ele estava ao portão; com seu quepe puxado até quase a nuca e seu cabelo quedado sobre o rosto de bronze. E então eles se conheceram. Ele costumava encontrá-la do lado de fora do Armazém todos os dias ao crepúsculo, e a visitava em casa. Frank levou-a para ver The Bohemian Girl e um júbilo a percorreu inteira, enquanto sentava junto a ele numa parte do teatro em que não estava habituada a sentar. Ele era muito afeito à música e até cantava um tanto. As pessoas já sabiam que se cortejavam, e quando ele cantava sobre a moça que amava um marinheiro, ela sempre se sentia prazerosamente confusa. Ele costumava chamá-la de Papoulinha por diversão. Primeiro, foi um motivo de grande excitação para Eveline conhecer o rapaz e então começar a apaixonar-se. Ele contava contos de países distantes. Havia começado como ajudante de convés por uma libra ao mês num navio da brigada de Allan Fine com destino ao Canadá. Nomeou todos os navios por que passara e os diferentes serviços. Ele velejou pelos Estreitos de Magellan e derramou contos sobre os terríveis nativos da Patagônia. Ele ficou encantado por Buenos Aires, disse, e apenas foi à terra natal em conta de um feriado. Claro que o pai da senhorita descobriu o relacionamento e a proibiu de vê-lo.

            -Conheço muito bem esses marinheiros, disse.

            Um dia iniciou com Frank uma querela terrível e depois disso Eveline teve que encontrá-lo em segredo.

            O poente se aprofundou sobre a alameda. A alvura de duas cartas em seu colo aumentava indistintamente. Uma era para Harry; a outra para o pai. Ernest era o seu favorito, mas ela gostava de Harry também. Seu pai envelheceu muito nesses tempos, ela pensou; ele sentiria falta da filha. Ás vezes o velho homem podia ser muito simpático. Não muito antes, quando a jovem folgara por um dia, o velho senhor leu uma história de fantasmas e à lareira fez uma torrada para ela. Outro dia, quando a mãe ainda era viva, todos seguiram à Montanha de Howth para um piquenique. Ela se lembrou do pai usando o chapéu da mãe para fazer rir todas as crianças.

            O tempo de partir ia chegando, mas ela ainda continuava sentada à janela, inclinando contra a cortina a cabeça e inalando o odor de cretona empoeirada. Bem abaixo na alameda ela podia ouvir um órgão de rua tocando. Ela conhecia a ária. Estranho que viesse justamente nesta noite lembrá-la da promessa feita à mãe, sua promessa de manter unido o lar o quanto conseguisse. Lembrou-se da última noite de enfermidade da mãe, no denso quarto cerrado de escuridão, do outro lado do corredor, e do lado de fora ela escuta a melancolia da ária italiana. Pediram ao organista que parasse e deram-no um sixpence. Lembrou-se de como o pai entrou no leito, bradando pomposo:

            - Italianos malditos! Vêm todos pra cá!

            Enquanto divagava, a penosa visão da vida da mãe cravou fundo no ser – aquela vida de sacrifícios ordinários convergindo na loucura final. Ela estremeceu quando ouviu novamente a voz tola e insistente da mãe:

            - Deravaun Seraun! Deravaun Seraun!

            Ela levantou num súbito impulso de terror. Escapar! Ela tinha de escapar! Frank a salvaria. Ele a daria vida e até amor, talvez. Mas ela queria viver. Por que deveria ser infeliz? Ela tinha o direto à felicidade. Frank a tomaria e a envolveria em seus braços. Ele a salvaria.

 

         .                .                .                     .               .             .            .       

           

            Ela estava entre a multidão ondulante na estação de North Wall. Ele segurou sua mão e sabia que Frank estava falando com ela, falando algo sobre as passagens repetitivamente. A estação estava repleta de soldados com malas marrons. Através das amplas portas do galpão ela pôde olhar a negra massa do navio, repousando ao lado do cais, com portinholas iluminadas. Ela nada respondeu. Ela sentiu suas bochechas gélidas e pálidas e, numa aflição perplexa, pediu a Deus para guiá-la, para mostrar-lhe seu dever. O navio soltou um pesaroso assobio na névoa. Se ela entrasse, no dia seguinte estaria pelos mares com Frank, navegando em direção a Buenos Aires. Sua passagem já estava reservada. Poderia voltar atrás mesmo depois de tudo que ele havia feito? Sua angústia despertou-lhe uma náusea no corpo e ela continuou movendo os lábios numa ardorosa prece.

            Uma campainha ressoou em seu coração. Ela o sentiu envolver-lhe as mãos.

            - Venha!

            Todos os mares do mundo tombaram em seu coração. Ele a tragava mais e mais neles: iria afogá-la. Ela segurou a balaustrada de ferro.

            - Venha!

            Não! Não! Não! Era impossível. Num frêmito as firmes mãos seguravam o ferro. Entre os mares ela derramou um pranto de agonia!

            - Eveline! Evvy!

            Ele correu além da grade e clamou para que o seguisse. Gritaram para que andasse, mas ele continuava a chamá-la. Então Eveline mostrou-lhe o rosto cândido, passivo, como um animal desamparado. Seus olhos não o deram sinal nenhum de amor ou despedida ou reconhecimento.

Joyce, Dublinenses

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